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27/05/2009 - A tênue linha entre o erro e o acerto

Fonte: Gazeta do Povo

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Policiais falam sobre o que sentiram durante os confrontos em que se envolveram com suspeitos

Aline Peres
Respiração curta, mudança de entonação da voz e falta de audição são alguns dos sintomas que policiais envolvidos em confrontos sentem ao se deparar com um alvo. O subcomandante da Companhia de Choque o capitão Luis Marcelo Maziero Jakiemir, diz que essas características são comuns a qualquer pessoa que precisa enfrentar o perigo. “O medo bom é necessário para dar a segurança da situação. São nesses momentos que você percebe a força que tem.”

Envolvido em um embate entre policiais e assaltantes que invadiram uma residência no Santa Cândida, em 1997, ele sentiu na pele o que é repassado nos treinamentos. Eram 23 horas, os dois homens tinham fugido para um matagal próximo. Os 20 soldados que faziam parte da sua equipe se separaram fazendo o cerco do local, a fim de evitar a possibilidade de fuga. Houve troca de tiros e um dos assaltantes morreu no local.


“Quando a adrenalina toma conta de você, o corpo e a mente reagem em sintonia. As cenas passam lentamente, você começa a ter falta de ar, tem uma visão de túnel focada somente no alvo e em nada mais, para de ouvir o que está perto, porém você consegue ouvir o cochicho do homem à sua frente, a chamada exclusão auditiva”, lembra ele. Tudo isso pode ocorrer em frações de segundo, porque o tempo pode ser aliado ou inimigo nessas situações. “A pressão é muito grande. Você é cobrado de todos os lados para cumprir o papel de ajudar a diminuir os índices de criminalidade, porém a população nunca reconhece o empenho da polícia.”
Ele conta que um policial da corporação fez uma pesquisa de campo entre os colegas, há alguns anos, e o resultado foi de que 90% das vítimas de confrontos estavam envolvidas em algum tipo de crime, eram jovens, na faixa dos 20 anos e com ensino médio. Outro dado alarmante: eram provenientes de famílias desestruturadas. “Hoje, temos a influência de filmes e meios eletrônicos que mostram que é preciso ser violento para ter poder.”

Postura

Integrante de uma equipe que é vista pela população como fria e truculenta, o soldado Rubens (nome fictício), do Grupo de Choque da Polícia Militar, diz que o temor da população é necessário. “A postura é exigida para que o respeito exista. Não podemos ficar mostrando os dentes.” Ele já se envolveu em vários confrontos policiais – o primeiro deles aconteceu em 2001.

A situação sempre é vista como temerária – e existe uma resistência em matar –, mas ele admite que é preciso agir. “A polícia não age, ela reage”, ressalta. Essa reação pode resultar em morte. Porém, ele diz que quem comete crimes deve saber que haverá consequências. Então, por que cometê-la? “Ninguém mata porque quer. Na primeira vez, a sensação é horrível ao perceber que você tirou a vida de um ser humano. No entanto, ao fim do confronto é possível sentir um alívio psicológico. Se não fosse ele (o bandido), poderia ser eu.”

Rubens diz que o número de mortes é significativo do lado do criminoso porque a polícia está treinada para atirar melhor e mais rápido. O policial atira visando a arma do agressor; o suspeito, atira a esmo.

Especialistas cobram política de enfrentamento
Na avaliação do sociólogo Júlio Jacobo Waiselfisz, um dos autores do Mapa da Violência, da Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana (Ritla), não há interesse em matar a população civil. Porém, a polícia tem legalmente o monopólio legítimo da violência: pode estar armada e enfrentar o criminoso. Depois, alega legítima defesa. “Não acredito que seja um problema de preparação policial, e sim de falta de política de enfrentamento.” Para o especialista, só a transparência nos dados vai fazer a polícia pensar antes de cometer excessos.

Ele lembra que no Rio de Janeiro as ações estão menos ostensivas – o que se via antes era um verdadeiro ato de guerra. No ano passado foram 1.330 autos de resistência (documento policial que registra resistência armada nas operações policiais), segundo a Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro. Em São Paulo, 377 casos, no ano.

O sociólogo e especialista em segurança Pedro Bodê, professor da Universidade Federal do Paraná, vê a transparência nos dados como algo fundamental. Quando a ação é em legítima defesa, não há o que discutir. Porém, os autos de resistência não entram no cômputo das estatísticas de homicídios, o que causa uma certa desconfiança. A execução sumária acaba tirando a legitimidade da polícia, diz ele. E, por incrível que pareça, se por um lado a sociedade tem a ideia de que o criminoso deva ser punido, as comunidades mais pobres – onde ocorre o maior número de casos – são as primeiras a se rebelar quando são atingidas. “Temos uma sociedade que clama pela pena de morte e pelo extermínio. Para a polícia, isso é uma carta branca.” (AP)


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